
O segredo do CAOL
por Ezequiel D’Oliveira
Era noite de sexta-feira e comecei os trabalhos no Baixo Belô, mais precisamente no Frei Veloso, na Avenida Santos Dumond. O bar tradicional era formado por um grande balcão em U rodeado de pequenos bancos, ao centro os frezers, ao fundo a janelinha por onde a cozinheira passava os pedidos, na outra ponta o caixa. Escolhi um dos últimos bancos, no canto e perto da porta dos fundos, acesso dos funcionários e rota de fuga nas emergências. Não era paranóia, ali era preciso precaução.
Enquanto a garçonete me servia uma cerveja e um torresmo, chegou o Sr. Nelson e veio assentar ao meu lado. Pediu mais um copo e uma de salinas para abrir o apetite. Depois dos cumprimentos e cordialidades legais, passamos para o assunto do dia. O que fazer mais tarde? Sr. Nelson sugeriu uma via sacra etílica. O roteiro passava pela Gruta Metrópole, na rua da Bahia, seguia até o Maleta, com rápida passagem pela Cantina do Lucas, onde poderíamos encontrar um jornalista dos Diários Associados que devia uma grana para o Sr. Nelson. Depois desceríamos a Augusto de Lima para comer um cascudo num bar sem nome na Padre Belchior.
Concordamos que era preciso substância no estomago para agüentar a jornada e a melhor pedida era um CAOL, tradicional prato com couve, arroz, ovo e lingüiça, o PF mais barato e ideal para exageros etílicos. Por sugestão do Sr. Nelson substitui o C do CAOL trocando a couve por uma dose de cachaça. Quando a garçonete foi passar o pedido para a cozinheira o Sr. Nelson esticou o pescoço e fez um gesto para a moça lá no fundo. Percebi mas não falei nada, devia ser algum segredo, ou rolo, não era da minha alçada. Os pratos chegaram e admirei, nunca havia visto um CAOL tão bem servido, devia dar para uns dois peões comerem tranquilamente. Sem demora pus-me em ação e recebi um toque de cotovelos e uma sinalização para o meu arroz. Com os talheres apalpei a montanha branca e percebi algo por baixo. Discretamente removi um lado da montanha e vi no subsolo um grosso e suculento bife soterrado.
-Viu? É premiado! Falou o Nelson.
-Como assim? Perguntei surpreso, como ele sabia?
-A Maria da Luz é minha parceira, olha lá. E de esgueiro, lá no fundo da cozinha vi uma mulata maravilhosa rebolando e olhando para trás. Seu Nelson juntou as mãos como em oração e esfregou freneticamente.
-É hoje! Tem filé e sobremesa mais tarde.
((Essa é a segunda história que o Ezequiel escreve pra gente. Quer fazer como ele? Se joga aqui))
imagem original daqui




