Histórias do Nelson #4 – Festa na Zona

Postado por Nelson Bordello em 02/ago/10 em Histórias do Nelson | 2 comentários

Por Ezequiel D’Oliveira


O caso que hora relato me foi contato há muito tempo por um amigo íntimo de Nelson Bordello, o Geógrafo. O Geógrafo ganhou este apelido por ter conhecimento completo da geografia do corpo humano e entender muito da natureza dos homens, conhecimentos adquiridos em anos de prática como legista no IML. Encontramos no Bar Vagalume 3, na Olegário Maciel, para umas cervejas e um caldo de mocotó e ele começou.

É meu jovem, não gosto de ser saudosista, mas quem conheceu esta cidade e algumas pessoas na década de sessenta, não tem como não sentir saudades. Já te contei da festa de uma semana que fizemos no Montanhês? Imagine, passamos uma semana na zona sem ver a rua. Quem faz isso hoje em dia? Ninguém. E tudo começou por acaso. O Nelson, o Vô Perna de Pau e eu passamos a noite bebendo na cobertura do Montanhês, às vezes descíamos para um quarto e voltávamos. Você lembra daquela cobertura com piscina, scot bar, sauna, ducha? Era coisa fina.

No sábado de manhã, além do álcool o pessoal estava abusando do alcalóide, todo mundo muito doido. Uma moça que morava lá foi numa loja na rua São Paulo e voltou com uns shorts para nós pegarmos o sol da manhã. O Nelson e eu colocamos os shorts e tiramos a camisa, estávamos a vontade. O Vô Perna de Pau por motivos óbvios, não quis vestir o short, tirou a camisa e ficou deitado numa espreguiçadeira.

Chegou um gaiato, malandro de segunda o Fernandim Jegue, e cismou de implicar com o Vô porque ele não tinha trocado a calça pelo short naquele calorão. O Nelson avisou pra ele: deixa de bobeira, cada um na sua, vamos respeitar. E o trouxa deu má resposta, vomitou qualquer merda. Rapaz, você não acredita, o Vô colocou a mão no bolso da calça, até ai tudo bem, o bolso estava vazio, mas tinha um buraco que dava dentro da perna de pau dele, que era oca. De lá ele tirou uma bereta, precisa ver que beleza de arma. E já foi pipocando, deu um pra cima e outro no joelho do Fernandim, que dobrou destramelado.

Agora imagine a confusão na zona; puta gritando, malandro fugindo, caloteiro fazendo arte, um pandemônio. Foi quando chegaram os leões de chácara e colocaram ordem na bagunça. Do jeito que estávamos continuamos deitados, tomando sol. O Vô guardou a bereta e ficou lá tranqüilão, como se não tivesse acontecido nada. O Nelson pediu gelo para o drink.

Fui dá uma assistência para as moças da casa e os seguranças. Chegamos a conclusão que não era uma boa levar o sujeito para o Pronto Socorro, teríamos que dar muitas explicações e seria ruim para a reputação da casa. Me prontifiquei a operar o sujeito e tirar a bala, ali mesmo. Rapaz, precisa ver a cara do paciente quando viu que não tinha saída, os amigos fugiram e ele lá baleado e sem recurso.

Fiz a operação com o canivete do Nelson, enquanto eu tirava a bala ele rezava o Salve Rainha, como estava meio chumbado misturava com o Hino da Bandeira, mas foi um conforto para o paciente. Depois de realizada a função chegou o boato de que havia tocaia nos esperando na Guaicurus. Os amigos do paciente queriam notícias e prometiam vingança. Pedimos uma das meninas para avisar que o Fernandim está bem e em recinto de recuperação, só iria sair de lá andando e curado. E o Nelson completou: em solidariedade ficaremos aqui ao lado dele, o tempo que precisar. Foi uma semana na zona com tudo que tem direito e o Vô falava assim: eu entrei com o motivo, o Nelson com a justificativa e você com os remendos, nosso time está funcionando bem.

2 comentários

  1. A leveza do texto contrasta com a dureza da situação, dando um toque de suavidade a um drama cheio de comicidade. O desfecho do fato, aliado à inusitada cirurgia e recuperação do paciente é, sem dúvida, fator histórico a ser registrado nos anais da boemia belorizontina.

    Muito boa a história.

    Edson.

  2. Conto leve, próprio para umas cervejas e caldo de mocotó. Muitos personagens e um narrador que teima em se ausentar.
    Muito bem escrito. Palmas à criatividade.

    Alexandre.

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