Histórias do Nelson #4

Postado por Nelson Bordello em 31/jul/10 em Histórias do Nelson | 0 comentário

Por Cinara de Araújo

Acordei no meio da noite. Tinha brilhantina na fronha. O Nelson já tinha ido. Pouco me importa a boca do lixo, o veludo vermelho ou as suposições, eu já sei que o fato e a tristeza vão desaparecer. Cedi igualmente às miragens e à clausura. E recebi em troca a configuração imperfeita do Bordello. De fato, não são somente as putas desfilando seus corpos genéricos, nem o resto de luz vermelha, nem o suporte preciso da finitude, o que conta é dançar toscamente quando desejamos.

Ninguém domesticou aquele homem. E ninguém vai. Se a cada um cabe o acréscimo de um ponto o meu é o seguinte: fui despertada com um vento noturno, com uma mão densa, com a roupa estranha de Nelson e sua voz sobre minhas costelas. Ele abriu minhas pernas muito devagar e enfiou alguma coisa gelada na minha vulva. Ele chorava e não estava bêbado. Perecia tomado por uma espécie de força. O intervalo descomunal entre o ato e o afeto. Acho que era uma garrafa de vidro que ele enfiava e depois, mesmo sem me lembrar se houve depois, depois ele se dobrou sobre mim e acariciou minha nuca.

Reconheci imediatamente que a minha vida tinha sido obstruída pela noite. Ou, pesei mais tarde, minha vida tinha sido ampliada de revés pela noite. Não tenho medo de ser estrangeira. Sei que o esforço ruma sempre para as arestas do vocabulário e quase nunca para as da grafia. Falei um palavrão qualquer e tentei dormir. Fingi que não tinha acontecido, olhar pra trás é penetrar na casa dos mortos. E Orfeu perdeu Eurídice de novo, e eu sei que a carne não me dará a escrita dos homens.

Não queria dizer, eu juro, sobre o olhar vesgo da espera e do amor. Retirei o corpo dele de cima do meu, com toda a delicadeza que sempre me foi própria. Acho que ele riu do palavrão que eu falei. Ele sabia que eu só fingia dormir. Não me diz respeito o que veio depois daquela noite. Vê como são as coisas? Uma espécie de prisão que a liberdade de Nelson me imprimiu.

Nada disso era erótico, mas me veio uma vontade irresistível de dançar a dois. Era o cheiro da brilhantina, ou do pinho: água velva. Aquele cheiro da terra prometida. O homem amado está nos meus braços, mas eu preciso sair. Sair sozinha, levando uma garrafa de vinho nas mãos. Preciso encontrar alguém na rua que despreze pontes e amores e possa reconhecer, na ponta dessa garrafa, o efeito esquisito da desobstrução. Essa é a memória que eu tenho dele. O ponto.

Fecho os olhos. Somos inocentes. Para além do ato deve haver propósito. Não me venham falar da escuridão de dentro dos cobertores. Não deixei que ele tocasse na torneira ou nas toalhas.

Fui, várias vezes, nos arredores do bordel, com a esperança de vê-lo entre as moças. Nada. Nunca mais. Se algum dia o visse, preferiria observar ao invés de escrever. Tanto faz que eu tivesse tido essa experiência aos vinte ou aos trinta. Não. Não, não. Não estou à espera. Nem sabia que ele tocava cavaquinho. Não me pareceu que aquela mão densa pudesse dedilhar qualquer coisa – instrumento ou corpo.

No entanto, foi despertada alguma coisa em mim que me faz acender a luz a noite ou balançar os braços na janela ou sair ou lixar as unhas ou dançar ou enfiar os dedos goela abaixo, até finalmente procurar uma garrafa de vidro pela casa. E foi uma única vez.

Talvez, influenciados, os leitores imaginarão uma certa luxúria ou lascívia. Mas eu garanto que não. Acordo todas as noites e a brilhantina permanece no meu travesseiro. Vou sugerir que seja outra coisa que eu deixei escapar.

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