Da ordem do incomunicável

Postado por valprochnow em 03/ago/10 em Sem categoria | 1 comentário


Conheci Rebecca através do Umas e Outras: primeiro a escrita depois a pessoa. Assim como conheci o Bordello primeiro nas redes sociais: a imagem do espaço antes do lugar. Agora arrumei motivo, já que o Daniel falou do Umas aqui e posso compartilhar com vocês um pouco da Rebecca: a escrita, a escritora, a pessoa.

Umas…

Nome: Rebecca Monteiro
Idade: 36
Formação: Arquitetura / Letras
Atuação: Professora de literatura, projeto de escritora e mais uma ou outra coisa….
Livro de cabeceira atual:  Água Viva, da Clarice.
Um livro para sorrir: Minha vida de menina, da Helena Morley.
Um livro para chorar: Infância, do Graciliano Ramos.
Um blog/site literário: Conversas Escritas, ótima seleção do Vítor; Acontecimentos do Antonio Cícero, sempre descubro poetas novos por lá. Para autores novos, o Eutanásia.
Autora / autor preferido do momento: Amélie Nothomb / Ian McEwan
Autores conhecidos e admirados na rede: Cristiane LisboaDaniel ToledoJuliana BrinaRemo Saraiva e Fal Azevedo
Leitura atual:  Alice no País das Maravilhas
Um texto especial do Umas e Outras: não sei escolher um só…
Um dos que eu mais gosto é o Babel Inexpugnável, pelo equilíbrio entre forma e conteúdo. Os curtinhos, Fragmento Seco e o Um dia ou dois são interessantes… Gosto muito dos mais abstratos, como o Ops!, pelos exercícios estilísticos, mas tenho um especial carinho por minhas histórias de amor… Delas, a do moço da imobiliária e a do Bruffles e Preocuda me são muito caras. Posso falar mais um? um dos que eu mais gosto de todos é Um Velho, não sei se porque ele foi o primeiro, ou porque ele é triste e doce ao mesmo tempo…
Autores mais lido até hoje: Clarice Lispector, Kafka, Dostoievsky, Machado de Assis e Virgínia Woolf.
Uma frase: “Tentar. Errar. Tentar de novo. Errar de novo. Errar melhor.”
Literatura brasileira ou francesa? Brasileira (é mesmo preciso escolher?)
Romance ou biografia? Romance
Ler ou escrever? Um não existe sem o outro
Sebo ou ebook? Os dois

… e Outras

Quando você começou a escrever?
Se tudo no mundo começa com um sim, o meu foi para minha mãe. Para as histórias dela. Mais do que fabuladora, ela contava casos estranhíssimos, inventava coisas que só muito mais tarde eu pude chamar de inverossímeis. Mas eu adorava, ouvia as coisas que ela contava e ficava repetindo de outro jeito, com outros finais. Eu fazia isso com músicas também, era uma invencionice só. Eu a imitava o mais que podia, mas não podia muito. Quando aprendi a ler, fiquei encantada! Eu lia o tempo todo, todo o tempo. E já queria escrever minhas próprias histórias, mas é lógico que não dava conta. Descobri que minha mãe era poeta, que escrevia em jornais, e fui ficando cada vez mais apaixonada por esse universo. Queria escrever também, do meu jeito, mas a escola travava um pouco minhas “inovações estéticas”. Com o tempo, fui escrevendo mais comportado, mais “certo”. Por outro lado, a escola me deu “leitores”. Foi onde eu vi que as histórias que eu contava provocavam reações cada vez mais interessantes: riso, lágrimas, desprezo, pena. Já não era mais uma questão só de prazer. Era de sedução também. A coisa foi ficando maior, ganhando um certo peso, uma certa dor.

Como você classifica sua escrita?
Eu não classifico. Não gosto nada nada de classes. Mas ela vai indo. Não sei exatamente para onde.

Seus textos tem um forte tom confidencial. E às vezes chega até a ser panfletário (no sentido bem otimista e positivo da palavra). Você acha que a literatura tem essa função de mobilizar e fazer pensar? Pra você, qual a maior função da literatura?
Eu firmemente acredito que a literatura tem a função que o leitor inventa pra ela. Mas a função que eu acho mais simpática é a da falta de função. Porque a literatura também é inútil, e isso é bom. Amar aquilo que não tem utilidade pode ajudar a questionar nossa mania de valorizar a utilidade, o propósito, o objetivo. Por que precisamos tanto dessas coisas? Dessa espécie de valores? Se for pra falar em função, eu prefiro abusar de uma certa analogia com a matemática: a literatura é função de infinitas variáveis. Uma dessas variáveis é o posicionamento político, claro, porque a literatura é política também. Às vezes, é no sentido da panfletagem mesmo (a la derecha ou a la izquierda), mas, muitas vezes, é no sentido da liberdade; no sentido de “vá para onde achar melhor”, “use para o que quiser”, “tempere a gosto”. Eu prefiro essas últimas, as mais libertárias, mas respeito o “propósito” das primeiras, das mais direcionadoras. Eu tento, na maior parte do tempo, não dirigir muito, não direcionar, deixar espaço para a decisão do leitor. Nem sempre consigo isso, mas o esforço é esse. Eu panfleto pela liberdade, sempre. No entanto, não falo de liberdade como ela é normalmente entendida, como soberania (eu posso tudo). Falo de liberdade em um sentido mais negociado, mais humilde (eu posso entre outros que também podem).

Quando você começou o Umas e Outras?
Quando eu percebi que, se eu não me exercitasse mais na escrita, eu jamais escreveria coisa alguma. Percebi que essa ferramenta me obrigaria a escrever mais, e por isso resolvi tentar. Não funcionou 100% não, mas funcionou. Tenho escrito mais, muito mais.

1 comentário

  1. Deus do céu, que delícia de entrevista. Amo os textos da Rebs e, principalmente, amo a Rebs!
    Quanto a resposta para a última pergunta. Pra mim, funcionou 100%. Deleito-me com suas palavras, seus devaneios.

    Para a Rebs e pra nós, umas, outras e muitas mais…

    Beijos, alegrias e poesias,

    Daniel Rubens Prado.

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