Por Henras*
Na porta estava aquele habitual sorriso. Ele era como seu dono, no topo, um forte branco contrastando com o negrume da pele. No sorriso, fora o branco, o que se via, o que restava e era maioria, era o abismo, escuro e profundo, com algumas estalactites e estalagmites. Uma sorridente boca banguela de um negro pobre na porta.
O que não faltava naquela boca era o silêncio eloqüente das palavras recusadas em se expressar. O homem travava sua fala nos braços, a agarrava junto ao peito, como quem teme que o calor próprio o abandone, dando espaço pra frieza de fora dominar o interno. Assim ele dizia não pra fora, e era só sim lá dentro, no fundo daquele breu abismo. Horas se acumulavam e ele aquela porta semi-aberta.
Ele é o espelho daqui dentro.
Lá fora não, pro que aqui sim, dentro. Aqui calores impróprios se misturam e suores escorrem nas paredes internas, tememos todos os frios ventos que o sorriso engole sereno. Aqui dentro é igual a todos aqui de dentro. Entranhamo-nos no breu de luminosidade intermitente, pra sentirmos o calor que guardamos dentro fora, sem soltar o de dentro, porque frio só na pele, no peito medo, e estamos na queda livre do abismo no solo. Assim ajudamos a ludibriar a noção de que vivemos lá fora, que o vento esclarece e que calor maior vem de cima. Todo dia a luz é intermitente.
Uma noite o sorriso se manifestou. Veio discreto até mim e perguntou se poderia entrar. A princípio olhei desconfiado, cobramos entrada, uma forma de determinarmos se quem entra no dentro nosso tem potencial de calor necessário. Mas olhei a hora e não demorava o dia raiar. Ele falou que só queira conhecer aqui dentro, ver como era essa coisa do calor guardado no escuro luz intermitente suor. Como só restavam poucos e também sorridentes, o momento cara de mau já tinha passado, permiti sua entrada. Ele ficou rodeando seu sorriso com intermitências em cada canto e detalhe do dentro, e parecia gostar. Parei de observá-lo, vi inofensivo.
Algum tempo depois, em meio àquelas vozes cansadas, um leve som diferente começou a soar. Ele foi se intensificando e pude notar ser de um instrumento. As pessoas já começavam a se movimentar e procurar sua fonte. Lembrei do banguela, o velho piano preto com algumas teclas brancas, escondido nos fundos. Me aproximei e vi o preto banguela dedilhando sons daquele abismo sonoro esquecido, e o vento de som que saía era alimento para aquelas conversas cansadas. Abri a porta, o sol raiava, a luz entrou e os peitos soltaram calores. Ventavam canções e todos se aqueciam com o calor lá de fora, aconchegando aqui dentro, no dentro de cada.
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