Terça Literária

Postado por Nelson Bordello em 07/jul/10 em Sem categoria | 0 comentário

Já que as terças são reservadas à literatura no Nelson, aqui não dá pra ser diferente. Toda semana, a gente traz pra você um verso, uma boa prosa, uma dica de leitura: a idéia é colecionar variedades sobre o tema, feito caderno de anotações.

E pra estrear com estilo nada melhor do que trazer alguns trechos do ABCD de Deleuze, excelente texto-entrevista (que você pode ler na íntegra neste link)  que discute a literatura de forma fascinante. Confiram:

“Eu acho o seguinte: para entender o que é um estilo, não se deve saber nada de lingüística. A lingüística causou muito mal. Por quê? Porque há uma oposição (…) entre a lingüística e a literatura. Ao contrário do que dizem, elas não combinam. Para a lingüística, uma língua é sempre um sistema em equilíbrio, portanto, da qual existe uma ciência. E o resto, as variações, vão para o lado da fala e não da língua. Quando se escreve, sabe-se que uma língua é, na verdade, um sistema que está longe do equilíbrio, é um sistema em perpétuo desequilíbrio”

Mas o que é o estilo de um grande autor? (…) a língua que falamos e escrevemos, para se ter o estilo, passa por um tratamento que é um tratamento artificial, voluntário. É um tratamento que mobiliza tudo: a vontade do autor, assim como seus desejos, suas necessidades, etc. (…)”
“Pode ser fazer a língua gaguejar. Não estou falando de você mesmo gaguejar, mas de fazer a língua gaguejar. Ou fazer a língua balbuciar, o que não é a mesma coisa(…)”

“Um estilista é alguém que cria em seu idioma uma língua estrangeira. (…)Ao mesmo tempo que, sob o primeiro aspecto, a sintaxe passa por um tratamento deformador, contorcionista, mas necessário, que faz com que a língua na qual se escreve se torne uma língua estrangeira, sob o segundo aspecto, faz-se com que se leve toda a linguagem até um tipo de limite. É o limite que a separa da música. Quando se conseguem essas duas coisas e se há necessidade para tal, é um estilo. Os grandes estilistas fazem isso. É verdade para todos: cavar uma língua estrangeira na própria língua e levar toda a linguagem a uma espécie de limite musical. Ter um estilo é isso”.

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